terça-feira, janeiro 23

: Geração fast food.


Não é só de comida que vos falo, ainda que as crianças hoje em dia comam mal - havendo, claro, exceções à regra. Não há criança que não tenha um telemóvel, tablet ou computador. "Consomem" jogos nada educativos e passam o tempo vidrados num ecrã que lhes destrói a visão. Ou então passam o dia sentados no sofá a consumir séries infantis, mais viciados do que alguns adultos. Os pais vão buscá-los à escola e antes de dizerem olá pedem-lhes o telemóvel e batem o pé. O mais engraçado... tudo isto com o consentimento dos pais. Pais esses que se esquecem de todas as recomendações médicas em prol da vontade dos filhos. O motivo? «Passo pouco tempo com o meu filho e não quero comprar guerras». Sim, já ouvi pais dizerem isto. As vidas actuais são complicadas, sim. Os empregos consomem-nos o tempo quase todo e quando chegamos a casa ainda parece termos mil coisas para fazer. Então mas porque não envolver as crianças nas tarefas? A partir dos dois anos, principalmente, eles já conseguem ajudar-nos com coisas simples. Nem que seja colocar a roupa suja na máquina.

Não sou mãe, é certo. Mas sou educadora. E acho importante dar-lhes o maior número de estímulos possível. Não imaginam a quantidade de crianças que, em sala, mal sabem pegar num lápis ou fazer um grafismo [trabalho com crianças entre os 3 e os 6 anos] mas que mexem num tablet com toda a destreza. É triste ver crianças que não conseguem concentrar-se sem todo aquele brilho e som de um aparelho tecnológico. 
Sim, também os deixo jogar um pouco no tablet se por acaso o levam para a escola (já é raro porque me insurgi contra isso). Mas jogam durante uma hora e nada mais. Falo com eles várias vezes sobre isso e digo-lhes que na escola fazemos trabalhos e brincamos com outras coisas. Faz-lhes falta brincar, imaginar, sonhar, criar. Faz-lhes falta estimularem a imaginação. Faz-lhes falta, acima de tudo, aprenderem a concentrar-se. 

As crianças hoje em dia parece que estão sempre aceleradas. Acabam uma tarefa e têm que ter logo outra. Ainda há uns dias estávamos a fazer um trabalho e assim que o primeiro acabou perguntou «E agora, já posso ir brincar?». Por norma dou-lhes jogos ou construções. Mas nesse dia achei que deveriam esperar pelos restantes colegas, para depois começarmos algo todos juntos. Foram os vinte minutos mais longos da vida deles. Já não sabiam estar na cadeira. Perguntavam constantemente quando íamos brincar. 
Às vezes é preciso desligar mas actualmente acho que as crianças estão sempre em modo on

E, sinceramente, já não sei onde desligar a ficha.

domingo, janeiro 21

: « Dias de Chuva » - parte 12 [final]


Acordei. Deixei-me ficar na cama de olhos fechados, procurando sons conhecidos na rua. O canto dos pássaros sobrepunha-se a tudo. Foi aí que percebi: já não chovia. Ao fim de tantos dias a chuva deu tréguas e eu senti o meu corpo relaxar. De repente ouvi um som, vindo da cozinha. Eras tu que por lá andavas, atarefado. Fiquei confusa; assustada. Como poderias ser tu? Quando apareceste à porta do quarto olhei para ti como nunca tinha olhado. Absorvi todos os teus traços, achando que a qualquer momento poderias desaparecer. Provavelmente reparaste que algo se passava porque me perguntaste se estava tudo bem. Desculpa, fui incapaz de te responder. Como te poderia explicar este sonho tão complexo que me fez viver e reviver emoções? Como te poderia explicar que um sonho me tinha mostrado tudo aquilo que iria ter que viver sem ti? Sorri-te. Agradeço por ter sido tudo um sonho; Por te ter junto a mim, para vivermos aquilo que tanto ansiamos. Por poder sentir o teu abraço, o teu toque. Foi um sonho mirabolante, quase um universo alternativo. Mas agora estás aqui. E a solidão nunca mais será o meu maior medo. Agora sei que irei sempre sobreviver.


A palavra usada foi solidão e foi-me dada pelo Jota Esse do Pra Variar