terça-feira, agosto 18

: Português Suave #1


  Quem me rodeia vê em mim a vida perfeita que eu não tenho: um bom trabalho, uma bela casa, um óptimo noivo. Vêem-me como o espelho de tudo aquilo que gostariam de ser. Vêem-me do lado de fora da janela, decorando todos os meus passos, acreditando que conhecem o que verdadeiramente sou. Acreditam que conseguem antever a minha vida e que podem opinar sobre as minhas decisões. Não podiam estar mais errados...
  Se me vissem agora, deitada na relva com um alguém que eles nem sonham existir, iriam dizer que esta não sou eu. Que não estou no meu perfeito juízo e que não tenho razões para fazer algo assim. Mas, sim, esta sou eu. Odeio todas aquelas rotinas que vivo e me sufocam; as concepções que me rodeiam e não avançam. Odeio que pensem que tenho que viver em função dos desejos alheios. Que já não tenho direito a ser eu. Odeio.
  É por isto que este alguém, cujo nome e cara todos desconhecem, me tem deitada ao seu lado. Por esta liberdade de pensamentos e sentimentos. Por este espaço que me dá para dizer o que me vier à cabeça. Estamos à sombra de um velho carvalho e ele fala sobre a segunda guerra mundial. Historiador de profissão, enche-me a memória com factos. Com algo novo, que me faz avançar. E eu, de olhos fechados, bebo-lhe as palavras. Sorrio, mesmo sem precisar esboçar um sorriso. Conheci-o na livraria que visito desde sempre. Parámos, lado a lado, distraídos pelos títulos de todos os livros que nos rodeavam. Quis o Deus dos clichés que tentássemos pegar no mesmo livro. Como se estivéssemos destinados a um mesmo futuro. Olhámo-nos, de forma demorada. E, subitamente, ele sorriu de forma enigmática, parecendo conseguir ler-me só por me observar. 

- Sabe qual é a melhor parte de qualquer história? - perguntou-me. Ao ver o meu ar confuso continuou. - O final, quando podemos pensar acerca de tudo aquilo que lemos. Quando podemos reflectir e acrescentar algo importante à nossa vida.

  Sorri-lhe, sem saber o que lhe responder. Agora sei que ele tinha razão. Que o final dos livros tem o sabor agridoce da despedida mas, ainda assim, deixam em nós marcas. De aprendizagem, de vida. Por isso cá estou eu, a aproveitar o meu período de reflexão. Sinto-me como se estivesse a terminar de ler o primeiro volume da minha vida. Como se a partir de agora tudo fosse um livro diferente. Ele puxa de um cigarro, português suave, acende-o e eu penso na efemeridade da vida. Tudo se pode apagar de um momento para o outro. E se eu vou, um dia mais tarde, apagar-me porque não fazer uso da vida que ainda tenho? O dia está ameno e aqui sou uma mulher livre de compromissos. Nunca pensei viver assim, nesta dupla vida. Mas a verdade é que aqui sou feliz. E se assim é porque iria querer abdicar disto?

  Todos pensam que me conhecem mas até eu ainda me estou a descobrir. Ainda avanço a passos de bebé, absorvendo tudo o que me rodeia. Enquanto ele fuma eu sonho. E imagino que poderia ser feliz com estes momentos. Quem sabe...

Fictício

11 comentários:

  1. Como se chama o livro? Eu queria editá-lo, mas a única editora que me deu resposta mais positiva pediu-me 900euros para comprar 100 exemplares do meu proprio livro... -.-

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  2. Adorei a história e anseio por mais!

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  3. e tudo está bem quando acaba bem :)
    manda-me um mail apra ameliapond87@gmail.com e assim podemos esclarecer tudo :)

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  4. Nunca páres de escrever, por favor!

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  5. SIm foi essa mesma. Neste momento não posso dar tanto dinheiro mas um dia quem sabe, tenha possibilidades;)

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  6. Gostei tanto, Cláudia! :) Tu e essa tua maneira de imprimires nas palavras uma magia única... Não deixes, nunca, de o fazer. Porque é belo. E eu sou uma sortuda por te ler :)

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  7. Tu és incrível! E nunca me cansarei de dizer isto. Escreves como ninguém, adoro perder-me nas tuas palavras e fico sempre a desejar ler mais. Vou acabar como comecei: és incrível!

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  8. « Todos pensam que me conhecem mas até eu ainda me estou a descobrir.» excelente conclusão.

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À noite gosto de contar as estrelas que estão no céu e de ver por onde anda a Lua. E tu do que gostas?