terça-feira, agosto 25

: Português Suave #2

#1


Recebi de braços abertos toda a história que ele me quis contar. Falou-me do passado e fez-me esquecer o presente. Fez o tempo parar. O vento soprava ao de leve e eu imaginava-me nos cenários que ele descrevia. Imaginava-me a viver a vida que, numa outra realidade, poderia ter sido a minha. Tudo se silenciou abruptamente. A sua voz calou-se, o vento deixou de soprar, as pessoas deixaram de rir. O mundo parecia ter-se desligado. Abri os olhos e observei-o. Estávamos completamente sós, ainda deitados na relva macia. Ele ofereceu-me um dos seus cigarros, preso entre dois dedos. Disse-lhe que não e ele colou-o, de forma precisa, entre os seus lábios. Imaginei como seria beijá-lo, com sabor a fumo; a história; a incerteza; a paixão. Enquanto isso ele observava-me, profundamente. Convidou-me a falar-lhe de mim. E eu só lhe consegui falar da música que emana dos meus poros, dos livros que não escrevo mas que habitam em mim. Não lhe falei da casa que espera por mim nem do noivo que anseia pela minha presença. Com esta pessoa vivo a realidade que pensei nunca me ser permitida. Vivo sem a pressão de ser perfeita. Sou só eu e ele. Mas, ainda assim, vivo com os remorsos a rasparem-me as paredes do coração. Olho para ele e o coração aperta. Talvez, numa outra vida, pudéssemos debater história e música desde o nascer até ao pôr-do-sol. Mas, no fundo do meu ser, tenho a certeza que nunca mais o poderei ver. Ele é o perigo e todos os sentidos proibidos que se erguem no meu caminho. Deveria fugir dele o quanto antes mas apenas consigo admirá-lo: ao seu nariz empinado, aos seus trejeitos snobes, à inteligência que ele não procura esconder. O sol começa a esconder-se e eu acordo para o presente. Tenho de ir, mesmo não querendo. Tenho que voltar, mesmo não o desejando. Levanto-me, rapidamente, sem que ele desvie o olhar de mim.

- Para a semana, aqui, à mesma hora? - Pergunta-me como se estas nossas horas tivessem sido um normal encontro de velhos amigos.
- Talvez. - Respondo-lhe. Queria dizer-lhe que sim, atirar-me aos seus braços. Mas o lado racional que em mim habita impede-me. Racionalizo demais. Sinto demais. Quem sabe, na próxima semana tenha ânsias dele e o procure. Sorrio-lhe e afasto-me. Somos pessoas de poucas palavras e não precisamos de despedidas convencionais para dar por terminada uma conversa. Eu caminho em direcção a casa e ele acaba de fumar um novo cigarro, ainda deitado na relva. Por hoje seguimos caminhos diferentes.

8 comentários:

  1. Adorei a tua história.
    Bjs

    http://omeuoutroladoeu.blogspot.pt/

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  2. Estou rendida! Está tão fantástico, Cláudia *.*

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  3. Escreves mesmo muito bem e eu aqui espero sempre pela continuação (:

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  4. Amei o texto. Escreves muito lindo e con muito sentimento.
    Tambem gostei aprender palavras que nao conhecia kkkk (aprender é tao fixe)

    Um beijo grande querida

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À noite gosto de contar as estrelas que estão no céu e de ver por onde anda a Lua. E tu do que gostas?